sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Maio

Ninguém vai me levar para casa. Eu poderia partir sem ir a lugar algum. Mesmo não indo. Fechando meus olhos e caindo no sono, num sonho em que eu caio de braços abertos mesmo lembrando que aqui eu não poderia voar. Porque não posso voar, como disseram que ninguém poderia. Ainda assim eu sonho em poder cair, como se me fosse dado a chance de saber que a queda e o voo estão me esperando. Que pode haver uma coexistência. Embora não acreditem e eu apenas continuasse a cair.

No que me restava encontrar à frente, o compasso passava intempestivo. Passava-se pelos meses e parou-se em Maio. Se em poucos segundos atrás eu caía, em menos tempo ainda eu abrira os olhos. Enxergava a escuridão a minha volta como uma luz cintilante que me trouxera de volta a casa. Isso me fizera sentir a sinestesia que meu cerne descoberto tentava abrigar-se, embora eu pudesse continuar a por em exposição, dentro de mim eu gritava por um toque da minha resignação em seu primeiro nome, Queda.

Sobrevivi conseguindo sorver a doce sensação da queda sem sentir o velho frio na barriga que me sorvia. Eu estava lá, pronto para desacertar, sem nada em mãos, e os desacertos me esperavam prontos para me reparar daquilo que eu imaginava ser meu limite, o chão. Se meu voo fosse meu desencanto, da queda à Maio, estaria eu me oferecendo a acreditar nisso, embora eu já estivesse caindo, e apenas acreditando que ninguém poderia me levar para casa.

"Por algum tempo, eu transitei em estado de alerta. Eu pude ver que, diante de cada um de nós, em seus meus maiores desacertos, ante a expansão que nos faz crer que somos maiores do que somos, somos apenas sobreviventes do nosso próprio impedimento."

domingo, 9 de agosto de 2009

A Porta

Eu tentei decifrar um sonho até entender que isto não tinha um nome, que era e que ia sendo assim. E que quando eu olhava para dentro de mim, eu saberia que eu não precisava me olhar para saber quem eu era. Mesmo que a maré subisse até meu pescoço, não haveria certeza de nenhum outro lugar, apenas que eu não estava ali. Não eu. Em poucos segundos eu caía, levando a vida adiante como um verme, e ia dizendo adeus, e pensando em concertar, mas continuando a correr. E caindo por toda parte. Cada prece como a mesma da noite anterior, eu precisava de mim e me entregava as costas. E eu sentia novamente a falta de alguém, algo. Eu estava perdendo a minha religião, perdendo a minha profundidade.
Deixando se definhar por pedaços de alguém que eu conhecia. Alguém que acreditava em si mesmo e que com poucas palavras ficava bem. Conceitos que viraram sussurros melancólicos. A verdade é que alguém assim não morre, se esconde por medo de não ser capaz, de não ter voz. Abraçando-se com a escuridão até que todas as cores façam uma única cor. Se fizerem. O abstrato tornando a vida passageira à essência curadora do que seja viver. Como se houvesse algum sentido em minhas palavras, em outras palavras, eu estava bem.
De mim eu ainda tinha a ocasião. Se algo se ausentou em mim é porque eu estava trancado do lado de fora. Talvez eu não perturbasse ao entrar, eu nunca soube antes. Talvez assim fosse meu jeito. Pois meus olhos caídos não representavam em si a fiel certeza dos meus próximos passos, representavam a calmaria dos meus pensamentos em resposta às provocações que eu vinha sofrendo. E o que eu quero dizer é que eu precisava estar lá, mesmo que me impedissem. Eu não estava pronto para saber se estava pronto, eu sabia somente que estava nisso. E minha força não estava na minha devoção não dada, na minha selvageria paralisada ou até na minha falsa inclinação, estava além do que sou. Fui destinado a abrir a porta pela qual eu posso me libertar, embora difícil não seja encontrar a porta certa, seja me encontrar em uma.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sentir a si mesmo

Nego a minha existência porque nego o privilégio de sentir. Pela noite, o pânico que se instaurou no meu peito assim que cedi os meus pés às ruas foi o único sentimento que pude me dar. Por inteiro, se assemelhou a liberdade resguardada, jamais fielmente sentida. Senti-lo sem medo me trouxe alivio. Assim o verbo se fez vivente na minha cabeça e fazer seu parto foi o que me rasgou por dentro. Por fora já estavam estacionadas as expressões cicatrizadas, ocupando a maior parte da minha face. Meus olhos não se deixaram enganar. Abortar o verbo seria enxugar os resquícios dos sentimentos que por sacrilégio já não me dei.

  Como uma criança fica sem reação diante de algo desconhecido e reluzente, meu desconhecimento foi com o que foi me dado. Ou se roubaram e deixaram para mim por não haver mais pra quem. A minha prece tem sido a mesma desde então. Não olho nisso com medo da cegueira. No meu álbum de sentimentos o medo faria figura presente, seria figura repetida, se eu o fizesse meu. Se eu o pousasse no seu reservado lugar. E se isto eu fizesse, cada outro espaço vazio continuaria vazio. Corrói a dor de não sentir o que se sente e apenas o que se deixa. 

Ter-me de mim para mim se tornou martírio. Desafio-me a cada tragada de ar. Suprimindo a falta de uma mortal salvadora pela própria razão da falta: existir e deixar-se duramente sentir o indesejável. E eu poderia, embora em poucas palavras, acreditar que insensível é aquele escolhe não sentir o que lhe dão, embora seja em verdade, aquele que por já sentir a dor de sentir-se se reserva mais para si. Pelo medo de deixar-se perder.

Com crueza no ato, naquela noite, eu sorri para a cólera, à decepção, o arrepio, o medo, à paixão, à inveja, e até para o abraço oferecido de uma criança que rejeitei sem sentir coisa alguma.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cada um

Cada um se entrega a alguém atribuindo a isso o que julga sentir. Cada um se usa antes de se entregar a alguém que espera ser somente seu. Cada um dá um passo a mais com medo de ter de esperar por muito tempo. Cada um se percebe quando se vê caindo. Cada um foge quando não consegue mais encarar suas decepções. Cada um suporta a dor do próximo quando esta não lhe faz companhia. Cada um se decepciona ao tentar fazer do outro alguém que lhes sirva de agrado e não obtém resultados. Cada um se perde em busca de alguém. Cada um se repara quando todos que estavam perto se vão. Cada um se arrisca quando o que não está tão longe pode ser alcançável.

Cada um se arrepende quando se sente desperdiçado. Cada um se cansa do que pode ser difícil. Cada um joga da forma como se encontra. Cada um nunca se entrega totalmente por medo do fracasso. Cada um evita recomeço para não ter de encarar o início novamente. Cada um estranha as diferença de valores dos outros. Cada um se suja mais ainda com o mesmo que poderia se limpar. Cada um teme acordar um dia e não se encontrar. Cada um não se conhece a ponto de chegar a acordar um dia. Cada um pensa saber usar o que está para vir do que com o que já tem. Cada um finge não saber a direção quando anseia ser encontrado.

Cada um faz promessas a alguém como se nada pudesse mudar algum dia. Cada um se assegura de estar bem quando nada muda. Cada um teme o erro enquanto este pode lhes ensinar a acertar. Cada um é como a rota de um carro andando em círculos. Cada um se ilude. Cada um se vangloria quando o acerto é contundente. Cada um é estável até o momento do choque. Cada um quer ser encontrado por alguém. Cada um quer ser alguém. Cada um se pergunta se é feliz, se é amado, se é alguém para alguém...

domingo, 10 de maio de 2009

Encontrado

No fundo, ele era um cara como qualquer outro, isso era o que as pessoas diziam umas às outras sobre ele, e também o que ele pensava acreditar ser. Alguém que experimentou e passou por muitas pessoas, anseios, arrependimentos, sonhos previamente realizados, mas era insatisfeito, era e estava perdido. Ser ignorado no meio de uma multidão não era o bastante para se sentir oprimido, nada era suficientemente o bastante para tal. Bastava ter a si mesmo para se sentir bem ou não. Ele era o tipo que não sabia se sentia a falta de alguém, não era o tipo que esperava nem que procurava, mas que pensava que um dia iria encontrar...
Anoitecera, estava andando sozinho, às nove e meia da noite, voltando de um lugar qualquer. Apenas andava, sem se preocupar como andava, se desviava ou se estava rápido demais à cada passo, à cada vez que respirava, e à cada segundo, e o que importava era apenas continuar. Desviou seu olhar para a rua adentro, e poucos segundos depois percebeu que dentro de um carro o motorista lhe acenava. Enquanto o carro estava sendo estacionado mais a frente, já num lugar mais escuro e afastado, ele fora ao encontro do desconhecido. O olhar enigmático e frisado que tal sujeito lhe faz serve para lhe assustar, não o susto de medo ou aflição, mas o que questionava "por que não?". E antes que pudesse proferir qualquer palavra, o motorista diz ter o confundido. Ele sorri atônito e começa a caminhar fora dali, o motorista lhe chama de volta. Ele não volta, começa a correr. O motorista acelera o carro. Ninguém entenderia o que aconteceu naqueles instantes. E se questionou inúmeras vezes a razão de ter sido encarado por tanto tempo, e se tinha algum valor para o desconhecido. Não sabia, e se arrependeu de ter corrido e perdido a chance de descobrir. Então, antes que imaginasse, ele está de frente ao seu perseguidor, mais uma vez, e descobre o que tinha sido aquilo. Descobre que se chama sentimento, e então novamente se assusta. Ele estava por aí, com alguém que parecia querer lhe sufocar, tirar, extrair, desviar, no entanto o verbo verdadeiramente certo era estar. Então se questionava sobre o que queria, o que devia, o que podia, mas o mais importante e verdadeiro foi o que de fato sentia. E sentia que devia ficar, ficar não para ver até onde isso ia dar, mas por ter a chance de ser feliz de verdade com alguém que lhe encontrara.

sábado, 18 de abril de 2009

Introspecto

Ele se sentia congestionado. Asfixiado não pelas emoções aprisionadas no peito ou paralelas ás tensões não expulsas da cabeça, mas à deriva da sua capacidade de controlar seus sentimentos e cansado de carregar a si mesmo durante tanto tempo. Não estava conseguindo andar nem livre quanto menos levemente, nem disposto a mudar mais uma vez. Talvez não houvesse mais espaço para ele dentro de si mesmo. Sentia-se desolado, amava-se mas não correspondia-se, não da forma como pudesse sentir-se salvo ou livre. E sempre esteve à procura disso, do intangível, talvez intocável, mas pura e completamente essencial. Enquanto caminhava, sussurrava alguma coisa, e olhava para algumas pessoas, não à procura de algum olhar que cruzasse com o seu, mas apenas analisando o desinteresse recíproco que cada olhar transbordava. Fosse naquela rua ou no restante do mundo. Mais uma vez, era apenas isso que anotaria no velho caderno que escrevia sobre sua vida em todas as noites que não conseguia controlar o peso da alma. E o crucial também era o que latejava em sua cabeça, o fazendo reviver velhas histórias das quais lembrava ter sido ora ou outra realmente feliz. E através disso, logo vinham sacrifícios, alternativas, gestos fora do comum para não perder os momentos em que podia ser feliz, aproveitando a intensidade e não a duração. E não importava quem estava ao seu lado, ainda havia os sorrisos que vinham como videoteipe. Tudo começava do medo, do resto, da falha. Abatido e equivocado, sua existência era marcada pela desilusão na busca de si mesmo, na compreensão do novo, e talvez à procura de quem fora algum dia. Porque o sol nasce para todos, mas nem todos precisam de luz, apenas uma incidência para que seja visível isto. E isto, era o que passava por sua cabeça. Mesmo que os olhos não possam conter uma lágrima, e se ludibriar seja a escapatória, ele compreendia as razões de não ser como qualquer um. Estava dentro demais, fora demais, qualquer coisa que subisse qualquer grau de limite. Estava no limite de si mesmo. Não no auge, porém no culminante. Pouco a pouco para encontrar qualquer coisa que não precisasse ter, e ser era demais para se completar. Naquele velho caderno, na última pagina, acabara de escrever algo. Encontrar a si é o mesmo que ser feliz. Fechou os olhos e sorriu estranhamente. 

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ela sabia

Quis desaparecer. Se entregar a qualquer coisa, menos ao que podia ver. Era demais, era significantemente bom demais pra ser demonstração de alguma outra realidade que vivia. Então se questionara se era certo agir assim, pois toda vez que alguém a elogiava, ela fugia, tentava mudar a causa que ditou as boas palavras. Mas ansiava, sim ansiava muito, encontrar alguém e algo que a sustentasse. Não o sustento físico, mais o incorpóreo. O que podia deixá-la ser livre, de bem consigo mesma. E pra encarar o que havia visto, tentava rejeitar, tentava fingir que não era com ela. E repetia isso vezes e mais vezes, até quando conseguisse acreditar em suas falsas articulações. Queria acreditar num mundo cruel, queria fazer drama, queria ser qualquer vítima, até chegou a pensar em se jogar, sem poder se agarrar a nada. Nada que a sustentasse. Mas ela sabia, sabia sim. Sabia como era tão contraditória, e que sua vida - novamente não no sentido físico, nem corpóreo - estava num precipício, agarrada apenas à uma flor que a qualquer instante iria desprender-se da terra e deixaria que caísse. E cair, para ela, podia ser bom, podia ser cruel, podia ser fictício, podia até ser nada, mas era tudo. Naquele instante, era tudo o que realmente valia a pena vivenciar. Eram suas emoções. E isto, era tudo aquilo que a motivava a querer desaparecer. Simplesmente porque o precipício era o amor. E em sua cabeça, ela tentava ignorar as formas estranhas que este sentimento podia incapacitá-la de continuar com sua ordinária vida. E ela sabia disso. Sabia porque sentia, e sentia que uma hora ou outra, ela não iria resistir mais. Pois em seu rosto apenas transparecia uma emoção difícil de explicar. Ela então apenas sabia, sim, e sentia... Foi se entregar, ao que antes evitava.