"Por algum tempo, eu transitei em estado de alerta. Eu pude ver que, diante de cada um de nós, em seus meus maiores desacertos, ante a expansão que nos faz crer que somos maiores do que somos, somos apenas sobreviventes do nosso próprio impedimento."
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Maio
domingo, 9 de agosto de 2009
A Porta
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quarta-feira, 24 de junho de 2009
Sentir a si mesmo
Nego a minha existência porque nego o privilégio de sentir. Pela noite, o pânico que se instaurou no meu peito assim que cedi os meus pés às ruas foi o único sentimento que pude me dar. Por inteiro, se assemelhou a liberdade resguardada, jamais fielmente sentida. Senti-lo sem medo me trouxe alivio. Assim o verbo se fez vivente na minha cabeça e fazer seu parto foi o que me rasgou por dentro. Por fora já estavam estacionadas as expressões cicatrizadas, ocupando a maior parte da minha face. Meus olhos não se deixaram enganar. Abortar o verbo seria enxugar os resquícios dos sentimentos que por sacrilégio já não me dei.
Ter-me de mim para mim se tornou martírio. Desafio-me a cada tragada de ar. Suprimindo a falta de uma mortal salvadora pela própria razão da falta: existir e deixar-se duramente sentir o indesejável. E eu poderia, embora em poucas palavras, acreditar que insensível é aquele escolhe não sentir o que lhe dão, embora seja em verdade, aquele que por já sentir a dor de sentir-se se reserva mais para si. Pelo medo de deixar-se perder.
Com crueza no ato, naquela noite, eu sorri para a cólera, à decepção, o arrepio, o medo, à paixão, à inveja, e até para o abraço oferecido de uma criança que rejeitei sem sentir coisa alguma.
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quarta-feira, 27 de maio de 2009
Cada um
Cada um se entrega a alguém atribuindo a isso o que julga sentir. Cada um se usa antes de se entregar a alguém que espera ser somente seu. Cada um dá um passo a mais com medo de ter de esperar por muito tempo. Cada um se percebe quando se vê caindo. Cada um foge quando não consegue mais encarar suas decepções. Cada um suporta a dor do próximo quando esta não lhe faz companhia. Cada um se decepciona ao tentar fazer do outro alguém que lhes sirva de agrado e não obtém resultados. Cada um se perde em busca de alguém. Cada um se repara quando todos que estavam perto se vão. Cada um se arrisca quando o que não está tão longe pode ser alcançável.
Cada um se arrepende quando se sente desperdiçado. Cada um se cansa do que pode ser difícil. Cada um joga da forma como se encontra. Cada um nunca se entrega totalmente por medo do fracasso. Cada um evita recomeço para não ter de encarar o início novamente. Cada um estranha as diferença de valores dos outros. Cada um se suja mais ainda com o mesmo que poderia se limpar. Cada um teme acordar um dia e não se encontrar. Cada um não se conhece a ponto de chegar a acordar um dia. Cada um pensa saber usar o que está para vir do que com o que já tem. Cada um finge não saber a direção quando anseia ser encontrado.
Cada um faz promessas a alguém como se nada pudesse mudar algum dia. Cada um se assegura de estar bem quando nada muda. Cada um teme o erro enquanto este pode lhes ensinar a acertar. Cada um é como a rota de um carro andando em círculos. Cada um se ilude. Cada um se vangloria quando o acerto é contundente. Cada um é estável até o momento do choque. Cada um quer ser encontrado por alguém. Cada um quer ser alguém. Cada um se pergunta se é feliz, se é amado, se é alguém para alguém...
domingo, 10 de maio de 2009
Encontrado
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sábado, 18 de abril de 2009
Introspecto
Ele se sentia congestionado. Asfixiado não pelas emoções aprisionadas no peito ou paralelas ás tensões não expulsas da cabeça, mas à deriva da sua capacidade de controlar seus sentimentos e cansado de carregar a si mesmo durante tanto tempo. Não estava conseguindo andar nem livre quanto menos levemente, nem disposto a mudar mais uma vez. Talvez não houvesse mais espaço para ele dentro de si mesmo. Sentia-se desolado, amava-se mas não correspondia-se, não da forma como pudesse sentir-se salvo ou livre. E sempre esteve à procura disso, do intangível, talvez intocável, mas pura e completamente essencial. Enquanto caminhava, sussurrava alguma coisa, e olhava para algumas pessoas, não à procura de algum olhar que cruzasse com o seu, mas apenas analisando o desinteresse recíproco que cada olhar transbordava. Fosse naquela rua ou no restante do mundo. Mais uma vez, era apenas isso que anotaria no velho caderno que escrevia sobre sua vida em todas as noites que não conseguia controlar o peso da alma. E o crucial também era o que latejava em sua cabeça, o fazendo reviver velhas histórias das quais lembrava ter sido ora ou outra realmente feliz. E através disso, logo vinham sacrifícios, alternativas, gestos fora do comum para não perder os momentos em que podia ser feliz, aproveitando a intensidade e não a duração. E não importava quem estava ao seu lado, ainda havia os sorrisos que vinham como videoteipe. Tudo começava do medo, do resto, da falha. Abatido e equivocado, sua existência era marcada pela desilusão na busca de si mesmo, na compreensão do novo, e talvez à procura de quem fora algum dia. Porque o sol nasce para todos, mas nem todos precisam de luz, apenas uma incidência para que seja visível isto. E isto, era o que passava por sua cabeça. Mesmo que os olhos não possam conter uma lágrima, e se ludibriar seja a escapatória, ele compreendia as razões de não ser como qualquer um. Estava dentro demais, fora demais, qualquer coisa que subisse qualquer grau de limite. Estava no limite de si mesmo. Não no auge, porém no culminante. Pouco a pouco para encontrar qualquer coisa que não precisasse ter, e ser era demais para se completar. Naquele velho caderno, na última pagina, acabara de escrever algo. Encontrar a si é o mesmo que ser feliz. Fechou os olhos e sorriu estranhamente.
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