domingo, 23 de novembro de 2008

Escuro Âmago

Você não suporta a pressão que há entorno de si mesmo. Te tormenta saber que ao sair de casa terá que encarar nada mais que o vácuo deixado por seus próximos passos. Saber que a linha do horizonte que enxergas, mostra apenas dois andares acima do que você realmente vê. E isso é o que te afugenta. É tudo o que te restringe à permanecer. Tem o medo sucumbido dentro dos próprios olhos. E ainda assim, procura demonstrar a frieza no semblante e a cautela na fisionomia. Mas no fundo, só Deus sabe o quão escuro é o teu interior. Escuro não por causa da tua consciência, escuro não por causa do teu afago, mas por se esconder no teu abrigo afim de não deixar-se entregar completamente. Talvez você seja uma pessoa boa. Eu creio nisso. Apenas creio, e digo que deve ser porque eu jamais o vi sendo.

 Algumas vezes eu sinto tua falta. E sou levado às pressas pelas minhas lembranças. Ano de Dois Mil e Sete. Tantas coisas, tantos lugares, tantas pessoas, tantas conversas, tantas lembranças. Eu poderia me lembrar de cada detalhe, cada momento, cada simples olhar. Poderia. Mas há algo dentro de mim que me impede de fazer isso. Deve ser a mágoa, o despedaço. Muitas coisas que ficaram e que foram jogadas, talvez a maioria nem deva ser lembrada. Ignoro-as. Sei que existem, mas também sei que já as superei.

 Éramos livres pela forma como (con) vivíamos. Liberdade encarada na saudade e na dor. Dor de olhar, dor de sentir borboletas voando no estomago. Dor inconseqüente. Dor de não poder voltar e sentir mais um pouquinho de dor. E entre a livre e espontânea vontade que nos foi permitida, dor era o que mais reagia ao nosso desejo. Só que tudo passou. Ano de Dois Mil e Oito, prestes a Dois Mil e Nove. Cada um em seu lugar, no seu elo de liberdade, na sua fragilidade de ainda não saber demonstrar o que ficou. E compreendo agora que nos teus olhos, ainda que haja o medo sucumbido dentre eles, só no teu escuro âmago podes demonstrar o quanto dói sair de casa e ter que encarar nada mais que o vácuo deixado por seus próximos passos. Sozinho.

3 comentários:

Ricardo Valente disse...

Da dor nasce tudo isso... Passos têm que ser dados... O medo do vácuo? Abraço! (muito bom aqui, visual e conteúdo)

Nathy Schervinski disse...

Adorei a forma como tu escreveu esse texto, mto bom!
Me identifiquei com alguns trechos,
como naquele que diz de não deixar-se entregar completamente e por isso se fechar no seu mundinho e tbm qdo diz que mtas coisas se passaram, mtos momentos ruins e alguns são ignorados pelo fato de saber que já foram superados.
Voltarei mais potr aqui
;*

Patrícia Harumi disse...

No alto desse precipício a queda é a conseqüência, mas o amor cria asas, ah, ele cria, mas... ninguém acredita. Decidi espalhar esse segredo! :)